BALÉ PLÁSTICO
Quanto mais atrasados estamos, mais sinaleiras fechadas encontramos pelo caminho. A cada parada e arrancada aumenta a ansiedade e a certeza de que não vamos chegar a tempo ao nosso compromisso. Quando estou assim, parada no trânsito, penso em como é grande o nosso atraso tecnológico. Por que ainda não inventaram o carro voador? Tudo o que eu queria nesta hora era apertar um botão e ver meu carro decolar verticalmente, abrindo uma vaga no meio da rua e sobrevoar o congestionamento, aterrissando a tempo e hora na porta do consultório médico. Deixemos de lado a hipótese de que todos os carros pudessem voar e o engarrafamento se transferisse para o espaço. Nada disso. O meu seria o único com esse poder e voaria livre sobre todos os outros. Tá bom pra você? Claro que não! Mas para mim estaria ótimo!
Numa tarde de sexta-feira, atrasada como sempre, estou ali parada na esquina da Sete de Setembro com a Bento Martins, maldizendo o tempo perdido diante do semáforo. É uma tarde de inverno, cinzenta, céu nublado, a ventania varrendo tudo e eu dando graças por estar dentro do carro, protegida do frio e do vento. De repente, um saco plástico grande, transparente, tipo aqueles usados para materiais de construção, inicia uma dança bem na minha frente, rodopiando, subindo, descendo, deslizando para cá e para lá, indo e voltando, em voltas inteiras e meia-voltas, num verdadeiro balé regido pelo vento e é tão bonito e tão fantástico o seu bailado que deixaria humilhada a cena similar apreciada por meio mundo no filme “Beleza Americana”. Começo a admirar a sua dança e esqueço do tempo, esqueço de tudo, quero que o sinal permaneça fechado até acabar aquela apresentação, quero estacionar, perder a consulta, esquecer todos os compromissos e continuar extasiada com os seus volteios e evoluções, orquestrados pelas rajadas de vento, ora suaves, ora frenéticas, alternando seus movimentos entre o clássico e o contemporâneo, numa performance ao mesmo tempo delicada e impetuosa, leve e decidida. Aquele saco plástico exibindo-se especialmente para mim me fez lamentar a brevidade do sinal vermelho e odiar o verde, que acendeu, expulsando-me do espetáculo. Ainda estendi por alguns segundos a minha permanência, mais, não pude, buzinas começaram a soar. Gente sem sensibilidade, vai ver não viram nada. Bem feito! Tenho certeza de que aquele balé magnífico foi exclusivamente para mim. Teria aplaudido, mas tive que partir, em completo estado de graça pelo privilégio de ter assistido aquele momento sublime, tão belo que se tornou inesquecível. Foi uma das coisas mais simples e mais bonitas que vi na minha vida. Poesia pura. Ou pura poesia. Até esqueci das sinaleiras. Carro voador, tecnologia? Para que tudo isso? Se eu tivesse voado, vejam só o que eu teria perdido! (Vera Janete Ortiz Ribeiro)
Julho / 2013