quarta-feira, 27 de março de 2013

Reflexões de Férias 2: ACAMPAMENTOS HUMANOS

Sentada à beira-mar, embaixo do guarda-sol, bem acomodada na minha cadeira de praia reclinável, faço uma pausa na leitura de “O Segredo de Frida Khalo”, e ponho-me a contemplar. É um dia perfeito, céu absurdamente azul, areia branca, mar calmo e transparente, um silêncio e uma paz que fazem evocar o paraíso. Divido-me entre curtir o vai-vem das ondas e das pessoas que desfilam seu bronzeado - ou sua brancura resplandecente - alguns languidamente passeando, desfrutando a areia sob os pés; outros, atletas de veraneio, entre os quais me incluo - de vez em quando - num passo apressado, querendo compensar um ano inteiro de acomodação e a observar o povo que aos poucos vai chegando e se instalando na faixa de areia que separa o mundano e o divino, as criações do homem e a criação de Deus, a terra e o paraíso, para mais um dia de férias, nesta segunda-feira de fevereiro. Concentro-me na observação desses grupos, famílias, bandos, casais e me chama a atenção a parafernália que nós, seres humanos, necessitamos para passar algumas horas longe do lar doce lar. É incrível como precisamos de coisas em volta de nós, como não conseguimos abrir mão dos artefatos materiais que simbolizam conforto e apenas curtir o sol, a areia, a água e a doce brisa do mar. Não. Precisamos trazer junto a nossa casa, quase que!
Em minutos vão sendo montados verdadeiros acampamentos. Tudo gira em torno de uma barraca, ou guarda-sol, rodeado por cadeiras, esteiras, mesinhas, toalhas, cangas, isopor, bebidas, garrafas de água, garrafa térmica, cuia de chimarrão, protetor solar, livros, jornais, celular, câmera digital, chapéus, bolsas, sacolas, tudo isso contornado por pares de chinelos distraidamente espalhados. Se for uma família com crianças, acrescente-se carrinhos de bebê, mamadeiras, brinquedos, piscininha, baldinhos, pazinhas, carrinhos, fraldinhas, papinhas, suquinhos, bolachinhas, e muitos outros inhos e inhas, tantos quantos se dispuserem a carregar. Algumas famílias precisam de um carrinho especial para acomodar toda essa tralha e levar do carro até a areia. Uma mão-de-obra enorme! Tenho amigos que torcem para amanhecer chovendo e não precisar carregar essa mudança diária.
Como é difícil para o homem integrar-se com a natureza, desligar-se do mundo formal e sobreviver por poucas horas que seja sem as suas tralhas! Acho mesmo que homens e tralhas se completam e, afinal, isso realmente procede, pois somos todos feitos da mesma matéria, da mesma energia do universo. Mas isto também comprova que somos estrangeiros neste planeta, pois somos o único animal para quem a natureza não basta, temos que transformá-la, modificá-la, adaptá-la para o nosso harmônico convívio.
A horas tantas, desmonto meu próprio acampamento e retorno à casa, carregando nos braços o peso das minhas tralhas. Depois de alguns minutos, elas começam realmente a pesar. É nessa hora que olho para o céu procurando uma nuvem negra. Bem que podia chover amanhã.

By VERA JANETE ORTIZ RIBEIRO - fevereiro de 2013

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