domingo, 24 de novembro de 2013


COM LICENÇA, VOU ATÉ ALI E JÁ VOLTO!

Vou até ali e já volto subentende um afastamento rápido, quinze minutos, meia-hora, uma hora talvez, duas horas no máximo, depois disso já é dado como caso perdido, como desaparecido. No entanto, descubro que esse vou até ali e já volto pode durar trinta, quarenta anos, sem significar abandono, sem que laços sejam rompidos, sem que vínculos sejam desfeitos, sem que amizades sejam esquecidas. Quando as relações são realmente importantes e significativas, quando existe afinidade, cumplicidade, companheirismo, elas se tornam marcantes e podem perdurar pelo resto da vida. É muito comum formarmos estes laços na juventude, quando temos tempo e oportunidade de conviver com muitas pessoas, seja com colegas de aula, parceiros de festas, jogadores do mesmo time, grupos com afinidades em comum, moradores da mesma rua, vizinhos, primos, enfim, com aqueles a quem passamos a chamar de amigos... todos sem outros compromissos que não sejam os de viver, conviver, se relacionar, trocar ideias, experiências, compartilhar sonhos e esperanças, traçar metas para o futuro. Até que o futuro chega e cada um toma um rumo diferente. É como se cada um dissesse: com licença, vou até ali estudar, trabalhar, me casar, formar uma família, criar meus filhos, evoluir financeiramente, comprar a casa própria, fazer novos amigos, viajar, viver a minha vida, realizar meus sonhos... Separados pela vida, vão assumindo responsabilidades, enfrentando desafios, acumulando experiências. Crescem, amadurecem e trabalham, trabalham e trabalham. Às vezes até esquecem de si mesmos mergulhados em compromissos, obrigações, atribuições, carnês, impostos, cartões de crédito, aluguel, alegrias, sonhos, esperanças, dívidas, frustrações, decepções, dificuldades, que tudo faz parte da vida. Passados alguns anos, problemas resolvidos, filhos crescidos, estabilidade adquirida, se descobrem com mais tempo para si e com tempo para curtir as novas e as velhas amizades.
Ah, como é bom reencontrar velhos amigos e perceber que a distância ou o tempo não mudaram o sentimento que nos unia, que embora muitos anos tenham se passado, a amizade e o carinho continuam sólidos e fortes. Fomos até ali e já voltamos e agora temos tempo para retomar nossos laços, nossa parceria, com o acréscimo de muitas experiências realizadas, muitas coisas construídas, muitas histórias para contar.
Se você retornar do seu vou até ali e já volto e encontrar nos seus amigos daquela época a mesma receptividade, receber a mesma acolhida e sentir-se confortável como se estivesse em casa outra vez, pode ter certeza, você fez a escolha certa, você teve amigos verdadeiros. Pessoas que nos valorizam jamais nos esquecem e jamais são esquecidas.

Aos novos amigos podemos dizer: com licença, vou até ali rever meus antigos amigos, mas já, já estou voltando para o nosso convívio, porque vocês são meus companheiros de jornada, amigos queridos que passaram a fazer parte da minha vida e da minha história e se tornaram tão imprescindíveis quanto meus amigos de infância. 
CINQUENTA TONS E UM DENTE-DE-LEITE

Visitando a Feira do Livro, lembrei que no ano passado o sucesso mais surpreendente ficou por conta da trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”. Estranhei que  estivesse  causando tanto impacto, vendendo tantos milhões de exemplares e sendo considerado o maior best-seller feminino dos últimos tempos. Como todo mundo estava lendo, fui ler para conferir. Do ponto de vista literário, o livro não conseguiu me prender, não me empolgou e tive que forçar a leitura até o fim, pois não gosto de deixar as coisas pela metade. Diante de tanto frisson, inclusive de amigas minhas, passei a achar que a errada era eu. Fiquei procurando as razões para não ter gostado do livro e a verdade é que achei a história fraca, um romance água com açúcar, tipo aqueles livrinhos que li na adolescência, e quem leu vai se lembrar, Sabrina, Bianca e Júlia. Talvez com um pouco mais de sacanagem. O enredo também não me convenceu, a linguagem não envolve, não cativa e, o pior, não acrescenta nada; a personagem é ingênua demais, o galã mais parece um sapo disfarçado de príncipe e cenas de sado-masoquismo não fazem a minha cabeça, sou contra sentir ou provocar dor.  É por isso que não fiz medicina ou mesmo enfermagem, não teria coragem de aplicar uma injeção. Sou muito sensível à dor. Minha memória neste sentido é bem remota. Tinha seis anos de idade e um dente-de-leite prestes a cair, preso  apenas por um fio. Morria de medo de arrancar e não deixava ninguém chegar perto. A família me zoava,  dizendo que iam amarrar um fio de linha no dente e  depois no trinco da porta. Quando puxassem a porta – vapt - o dente saltaria longe – vupt! Só imaginar isso já me causava calafrios. Praticamente não dormia, temendo que fizessem aquilo à noite. Ficava  cuidando do dente como se fosse uma pedra preciosa, velando por ele como quem vela o sono de um recém-nascido. Uma tarde, meu tio veio nos visitar, eu estava deitada na cama, velando meu dente, quando ele parou na porta do quarto e começou a fazer todas as promessas possíveis para deixá-lo ver o dente. Eu nada. Ele insistiu muito, garantindo que não ia arrancar o dente, só queria olhar. Eu nada. Porém, após tanto esforço e conversa, do alto dos seus trinta anos ele conseguiu, enfim, me convencer e eu acabei acreditando nele. E deixei-o chegar perto para ver o dente. Numa fração de segundos ele estava com o dente na mão, dizendo: viu, nem doeu! Ahh, mas doeu sim, e como! Doeu muito mais do que ele poderia imaginar. Doeu por 50 anos. Fiquei inimiga dele. E toda vez que ele me via, falava no assunto. Eu já adulta e ele, sempre que me encontrava, relembrava o nefasto acontecimento. Quantas vezes tive vontade de lhe dizer que o que  doeu mesmo foi ele ter destruído a minha confiança nas pessoas. Levei 50 tons, quero dizer, 50 anos para compreender que talvez ele tenha me feito um favor.
Mas o que isto tem a ver com o livro de E. L. James? Além da dor, a desconfiança.   Confiar é bom, mas desconfiar é necessário. Some-se o fato de não gostar de ser dominada. Como boa escorpiana, prefiro estar no domínio. E, com  certeza, não curtiria uma chibatada sequer, nem pensar! Lei Maria da Penha na hora, com toda a certeza!
Talvez se eu tivesse lido este livro quando ainda era adolescente, fantasiosa e sonhadora, até tivesse gostado.  Mas agora! Estranho que ele seja comparado à saga Crepúsculo, este sim para mocinhas.
Fica a pergunta: porque tantas mulheres, todas maduras e bem resolvidas, se encantaram por este pretenso romance erótico? Não quero desfazer do livro, estou apenas externando a minha opinião. Já me basta achar que sou eu a ovelha negra,  a que não se rendeu aos encantos de Christian Grey.