CINQUENTA TONS E UM DENTE-DE-LEITE
Visitando a Feira do Livro, lembrei
que no ano passado o sucesso mais surpreendente ficou por conta da trilogia
“Cinquenta Tons de Cinza”. Estranhei que estivesse causando tanto impacto, vendendo tantos
milhões de exemplares e sendo considerado o maior best-seller feminino dos
últimos tempos. Como todo mundo estava lendo, fui ler para conferir. Do ponto
de vista literário, o livro não conseguiu me prender, não me empolgou e tive
que forçar a leitura até o fim, pois não gosto de deixar as coisas pela metade.
Diante de tanto frisson, inclusive de amigas minhas, passei a achar que a
errada era eu. Fiquei procurando as razões para não ter gostado do livro e a
verdade é que achei a história fraca, um romance água com açúcar, tipo aqueles
livrinhos que li na adolescência, e quem leu vai se lembrar, Sabrina, Bianca e
Júlia. Talvez com um pouco mais de sacanagem. O enredo também não me convenceu,
a linguagem não envolve, não cativa e, o pior, não acrescenta nada; a
personagem é ingênua demais, o galã mais parece um sapo disfarçado de príncipe
e cenas de sado-masoquismo não fazem a minha cabeça, sou contra sentir ou
provocar dor. É por isso que não fiz
medicina ou mesmo enfermagem, não teria coragem de aplicar uma injeção. Sou
muito sensível à dor. Minha memória neste sentido é bem remota. Tinha seis anos
de idade e um dente-de-leite prestes a cair, preso apenas por um fio. Morria de medo de arrancar
e não deixava ninguém chegar perto. A família me zoava, dizendo que iam amarrar um fio de linha no
dente e depois no trinco da porta. Quando
puxassem a porta – vapt - o dente saltaria longe – vupt! Só imaginar isso já me
causava calafrios. Praticamente não dormia, temendo que fizessem aquilo à
noite. Ficava cuidando do dente como se
fosse uma pedra preciosa, velando por ele como quem vela o sono de um
recém-nascido. Uma tarde, meu tio veio nos visitar, eu estava deitada na cama,
velando meu dente, quando ele parou na porta do quarto e começou a fazer todas
as promessas possíveis para deixá-lo ver o dente. Eu nada. Ele insistiu muito,
garantindo que não ia arrancar o dente, só queria olhar. Eu nada. Porém, após
tanto esforço e conversa, do alto dos seus trinta anos ele conseguiu, enfim, me
convencer e eu acabei acreditando nele. E deixei-o chegar perto para ver o
dente. Numa fração de segundos ele estava com o dente na mão, dizendo: viu, nem
doeu! Ahh, mas doeu sim, e como! Doeu muito mais do que ele poderia imaginar.
Doeu por 50 anos. Fiquei inimiga dele. E toda vez que ele me via, falava no
assunto. Eu já adulta e ele, sempre que me encontrava, relembrava o nefasto
acontecimento. Quantas vezes tive vontade de lhe dizer que o que doeu mesmo foi ele ter destruído a minha
confiança nas pessoas. Levei 50 tons, quero dizer, 50 anos para compreender que
talvez ele tenha me feito um favor.
Mas o que isto tem a ver com o livro
de E. L. James? Além da dor, a desconfiança.
Confiar é bom, mas desconfiar é
necessário. Some-se o fato de não gostar de ser dominada. Como boa escorpiana,
prefiro estar no domínio. E, com certeza, não curtiria uma chibatada sequer,
nem pensar! Lei Maria da Penha na hora, com toda a certeza!
Talvez se eu tivesse lido este livro
quando ainda era adolescente, fantasiosa e sonhadora, até tivesse gostado. Mas agora! Estranho que ele seja comparado à
saga Crepúsculo, este sim para mocinhas.
Fica a pergunta: porque tantas mulheres,
todas maduras e bem resolvidas, se encantaram por este pretenso romance erótico?
Não quero desfazer do livro, estou apenas externando a minha opinião. Já me
basta achar que sou eu a ovelha negra, a
que não se rendeu aos encantos de Christian Grey.
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