domingo, 24 de novembro de 2013

CINQUENTA TONS E UM DENTE-DE-LEITE

Visitando a Feira do Livro, lembrei que no ano passado o sucesso mais surpreendente ficou por conta da trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”. Estranhei que  estivesse  causando tanto impacto, vendendo tantos milhões de exemplares e sendo considerado o maior best-seller feminino dos últimos tempos. Como todo mundo estava lendo, fui ler para conferir. Do ponto de vista literário, o livro não conseguiu me prender, não me empolgou e tive que forçar a leitura até o fim, pois não gosto de deixar as coisas pela metade. Diante de tanto frisson, inclusive de amigas minhas, passei a achar que a errada era eu. Fiquei procurando as razões para não ter gostado do livro e a verdade é que achei a história fraca, um romance água com açúcar, tipo aqueles livrinhos que li na adolescência, e quem leu vai se lembrar, Sabrina, Bianca e Júlia. Talvez com um pouco mais de sacanagem. O enredo também não me convenceu, a linguagem não envolve, não cativa e, o pior, não acrescenta nada; a personagem é ingênua demais, o galã mais parece um sapo disfarçado de príncipe e cenas de sado-masoquismo não fazem a minha cabeça, sou contra sentir ou provocar dor.  É por isso que não fiz medicina ou mesmo enfermagem, não teria coragem de aplicar uma injeção. Sou muito sensível à dor. Minha memória neste sentido é bem remota. Tinha seis anos de idade e um dente-de-leite prestes a cair, preso  apenas por um fio. Morria de medo de arrancar e não deixava ninguém chegar perto. A família me zoava,  dizendo que iam amarrar um fio de linha no dente e  depois no trinco da porta. Quando puxassem a porta – vapt - o dente saltaria longe – vupt! Só imaginar isso já me causava calafrios. Praticamente não dormia, temendo que fizessem aquilo à noite. Ficava  cuidando do dente como se fosse uma pedra preciosa, velando por ele como quem vela o sono de um recém-nascido. Uma tarde, meu tio veio nos visitar, eu estava deitada na cama, velando meu dente, quando ele parou na porta do quarto e começou a fazer todas as promessas possíveis para deixá-lo ver o dente. Eu nada. Ele insistiu muito, garantindo que não ia arrancar o dente, só queria olhar. Eu nada. Porém, após tanto esforço e conversa, do alto dos seus trinta anos ele conseguiu, enfim, me convencer e eu acabei acreditando nele. E deixei-o chegar perto para ver o dente. Numa fração de segundos ele estava com o dente na mão, dizendo: viu, nem doeu! Ahh, mas doeu sim, e como! Doeu muito mais do que ele poderia imaginar. Doeu por 50 anos. Fiquei inimiga dele. E toda vez que ele me via, falava no assunto. Eu já adulta e ele, sempre que me encontrava, relembrava o nefasto acontecimento. Quantas vezes tive vontade de lhe dizer que o que  doeu mesmo foi ele ter destruído a minha confiança nas pessoas. Levei 50 tons, quero dizer, 50 anos para compreender que talvez ele tenha me feito um favor.
Mas o que isto tem a ver com o livro de E. L. James? Além da dor, a desconfiança.   Confiar é bom, mas desconfiar é necessário. Some-se o fato de não gostar de ser dominada. Como boa escorpiana, prefiro estar no domínio. E, com  certeza, não curtiria uma chibatada sequer, nem pensar! Lei Maria da Penha na hora, com toda a certeza!
Talvez se eu tivesse lido este livro quando ainda era adolescente, fantasiosa e sonhadora, até tivesse gostado.  Mas agora! Estranho que ele seja comparado à saga Crepúsculo, este sim para mocinhas.
Fica a pergunta: porque tantas mulheres, todas maduras e bem resolvidas, se encantaram por este pretenso romance erótico? Não quero desfazer do livro, estou apenas externando a minha opinião. Já me basta achar que sou eu a ovelha negra,  a que não se rendeu aos encantos de Christian Grey.


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