sábado, 8 de fevereiro de 2014

                                                         ESCOLHAS
Quando falamos em “escolhas” logo pensamos em algo grandioso, casamentos, carreiras, profissões, mudanças radicais, decisões imperativas, coisas que irão determinar nossa vida, nosso futuro e deixar sua marca indelével estampada em nossa testa para sempre. Certo. São elas que vão moldar nosso caráter, nossa personalidade e nosso destino. Somos o fruto de nossas escolhas. E temos que fazê-las o tempo todo. Grandes ou pequenas, impossível nos livrar delas.
Escolhas são quase como árvores trepadeiras que vão se enroscando em nosso corpo e nos envolvendo inteiramente, como as árvores de Angkor Wat, quanto mais o tempo passa mais fortes e robustas se tornam, vão crescer tanto que em certas horas vão tentar nos sufocar, vamos desejar cortar-lhes os galhos, arrancar sua raízes, mas não adianta, elas jamais nos abandonarão. Serão para sempre como um outro ser, um irmão siamês grudado em nossa pele, correndo em nosso sangue, atuando em nosso coração, nossa razão, e vão determinar todos os nossos passos, vão determinar a nossa existência. Serão como um apêndice que iremos arrastar por aonde quer que andemos, com um letreiro de neon anunciando: “eu e minhas escolhas”.
Escolhas tem vida própria e nos submetem frequentemente ao seu jugo de tirania. Temos que acalmá-las, tratá-las com carinho, afagar sua cabeça e carregá-las de mansinho, para que não nos torturem, para que sejam nossas amigas, para que nos ajudem a conviver em harmonia com nosso eu e nos ajudem a manter a nossa paz interior.
Ao fazermos as escolhas certas nossas árvores tornam-se viçosas, verdejantes, suas folhas tornam-se abundantes e nos protegem com sua sombra; seus galhos, satisfeitos, afrouxam e nos presenteiam com regozijos de liberdade. Ao fazermos escolhas erradas, porém, despertamos a sua ira, suas raízes secam e seus galhos transformam-se em espinhos que irão ferir nossa carne, criar sulcos em nossa face, suas folhas caídas tornam-se lodo onde ficaremos presos, subjugados, reféns de sua vingança sórdida e mesquinha. Precisamos fazer as escolhas certas. Mas quem disse que é fácil? Fazer a escolha certa implica em sabedoria, conhecimento, bom-senso, discernimento, sentimento, consciência e responsabilidade. É preciso definir as prioridades e tê-las bem claras em nossa mente, só que às vezes elas se embaralham, nos confundem. Quantas vezes nos vemos forçados a escolher entre coisas alheias à nossa vontade, coisas que não planejamos e nem desejaríamos, mas que a vida coloca diante de nós, situações difíceis e inusitadas que nos obrigam a frear e voltar na contramão. É preciso muita compreensão e sensatez para entender e aceitar escolhas inevitáveis que somos obrigados a fazer. Nem sempre são as que gostaríamos, mas a nossa razão pondera a seu favor e precisamos tomá-las de coração aberto. Se forem para o bem do próximo, ou de quem amamos, sempre haverá a recompensa do bem-estar, da consciência tranquila, do dever cumprido.
Fazer escolhas exige uma profunda atividade mental, horas de reflexão e agonia até chegar a uma decisão definitiva, mas após sugar camadas e camadas de nossa energia, nossa árvore sentir-se-á alimentada e aplacará o seu furor. Embora sua seiva pegajosa obstrua nossas veias e nos impeça de respirar dignamente, sua fome abrandará e por algum tempo ela ficará satisfeita. Até surgirem outras demandas, outras urgências e tudo se repetirá. Así es la vida!
06/02/14
                                                  RESIGNAÇÃO

Enclausurada em casa, com os dois pés quebrados, impossibilitada de fazer qualquer coisa, até mesmo de ir na cozinha assaltar a geladeira, e ainda por cima com um calor de 40 graus (aqui quero dar um salve, um não, três salves para o inventor do ar-condicionado), e o que é pior, justo nas minhas férias, com tantos planos pra realizar, tantas coisas esperando na fila pra serem postas em prática, descubro que a única coisa que posso fazer, é me resignar. Mas como é difícil se resignar! Acostumados que estamos a dirigir nossos próprios destinos, de repente, nos vermos diante de uma situação adversa e imutável, que não nasceu do nosso desejo, e que, contra nossa vontade, somos obrigados a nos submeter, faz balançar nossas estruturas. Neste momento começamos a procurar o culpado ou pensar no famoso e se. E se eu tivesse feito isto, e se eu não tivesse feito aquilo, poderia ter evitado esta situação. Ou não?
Sinto-me cativa dentro da minha própria casa, um status pior do que prisão domiciliar, posto que nesta o prisioneiro ainda tem o direito de ir e vir, de circular pelos cômodos, de olhar pela janela, de sentar-se à mesa. Parece que fui abduzida, estou vivendo em outra esfera, num mundo quase totalmente virtual, à espera de que ossinhos se calcifiquem, cicatrizem e me devolvam a minha vida.
Isto já me aconteceu outras vezes, e cada vez que me vejo nessa condição, de ter que sair de cena abruptamente, deixando tudo de lado, penso que esta é uma situação de quase morte. Sério. Assim deve ser a morte. A quantos ela pega de surpresa, no meio do caminho, no meio dos planos, no meio da vida, e os tira de cena antes da peça acabar. Não importa tudo que estava por fazer, todas as coisas importantes ou essenciais que não poderiam deixar de ser executadas, não importa quão vitais elas fossem, elas não vão ser realizadas. E não adianta objetar, replicar, questionar, argumentar, é assim que vai ser. E o mundo vai continuar, a vida vai continuar, e nós... nós temos que nos resignar.
Isto significa que ainda devo dar graças a Deus por estar apenas numa situação indesejada mas que é reversível, depende apenas de tempo e paciência? Significa que devo me resignar? Mas não gosto disso, não gosto de ficar parada, aceitando o inaceitável; não gosto de ser plateia da minha própria vida. Até posso me resignar, mas não tão passivamente. Resignar-me, sim, mas sob protesto! Pronto, falei!
28/01/13